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Liturgia diária

Sexta-feira depois das Cinzas

Sexta-Feira, 8 De Março

Isaías 58,1-9a.

1 Eis o que diz o Senhor Deus: «Clama em altos brados sem cessar, ergue a tua voz como trombeta. Faz ver ao meu povo as suas faltas e à casa de Jacob os seus pecados.
2 Todos os dias Me procuram e desejam conhecer os meus caminhos, como se fosse um povo que pratica a justiça, sem nunca ter abandonado a lei do seu Deus. Pedem-Me sentenças justas, querem que Deus esteja perto de si e exclamam:
3 "De que nos serve jejuar, se não Vos importais com isso? De que nos serve fazer penitência, se não prestais atenção?" Porque, nos dias de jejum, correis para os vossos negócios e oprimis todos os vossos servos.
4 Jejuais, sim, mas no meio de contendas e discussões, e dando punhadas sem piedade. Não são jejuns como os que fazeis agora que farão ouvir no alto a vossa voz.
5 Será este o jejum que Me agrada no dia em que o homem se mortifica? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre saco e cinza: é a isto que chamais jejum e dia agradável ao Senhor?
6 O jejum que Me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos?
7 Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante?
8 Então a tua luz despontará como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor.
9 Então, se chamares, o Senhor responderá; se O invocares, dir-te-á: "Estou aqui"».

51(50),3-4.5-6a.18-19.

R/ Não desprezeis, Senhor, o nosso coração humilhado e contrito.

3 Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia,
apagai os meus pecados.
4 Lavai-me de toda a iniquidade

e purificai-me de todas as faltas.
5 Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
6 Pequei contra Vós, só contra Vós,

e fiz o mal diante dos vossos olhos.
18 Não é do sacrifício que Vos agradais
e, se eu oferecer um holocausto, não o aceitareis.
19 Sacrifício agradável a Deus é um espírito arrependido:

não desprezareis, Senhor, um espírito humilhado e contrito.

Mateus 9,14-15.

14 Naquele tempo, os discípulos de João Batista foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe: «Por que motivo nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não jejuam?».
15 Jesus respondeu-lhes: «Podem os companheiros do esposo ficar de luto enquanto o esposo estiver com eles? Dias virão em que o esposo lhes será tirado e nessa altura hão de jejuar».

Comentário ao Evangelho

«Nesses dias jejuarão»

Entre as práticas penitenciais que a Igreja nos propõe, sobretudo neste tempo de Quaresma, encontra-se o jejum. Ele comporta uma sobriedade especial em relação aos alimentos, salvaguardando as necessidades do nosso organismo. Trata-se de uma forma tradicional de penitência, que não perdeu nada do seu sigificado e que talvez se deva mesmo redescobrir, especialmente naquelas partes do mundo e naqueles meios onde, não só o alimento abunda, mas se encontram por vezes doenças devidas à sobrealimentação.

O jejum penitencial é evidentemente muito diferente dos regimes alimentares terapêuticos. Mas, à sua maneira, pode ver-se nele como que uma terapia da alma. Com efeito, praticado em sinal de conversão, facilita o esforço interior para nos pormos à escuta de Deus. Jejuar é reafirmar a si mesmo o que Jesus replicou a Satanás que O tentava após quarenta dias de jejum no deserto: «Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4,4). Hoje, especialmente nas sociedades de bem-estar, há dificuldade em compreender o sentido desta palavra evangélica. A sociedade de consumo, em vez de solucionar as nossas necessidades, cria necessidades sempre novas, gerando mesmo um ativismo desmesurado. [...] Entre outras significações, o jejum penitencial tem precisamente por objetivo ajudar-nos a reencontrar a interioridade.

O esforço de moderação nos alimentos estende-se a outras coisas, estas não necessárias, e traz um grande auxílio à vida do espírito. Sobriedade, recolhimento e oração caminham lado a lado. Pode fazer-se uma oportuna aplicação deste princípio no que toca ao uso dos meios de comunicação de massa. Eles têm uma utilidade indiscutível, mas não devem tornar-se os «senhores» da nossa vida. Em quantas famílias a televisão parece substituir, mais do que facilitar, o diálogo entre as pessoas! Um certo «jejum», também neste domínio, pode ser salutar, quer para consagrar mais tempo à reflexão e à oração, quer para cultivar as relações humanas.  

São João Paulo II (1920-2005) papa Angelus de 10 de março de 1996

Santo do Dia